sábado, 7 de março de 2009

Se eu não fosse Mulher...

Se eu não fosse Mulher...
Eu queria ser um duche quente, um beijo carinhoso, um vinho maduro, um queijo bem curado, um sol de inverno, uma chuva de verão, a onda que beija os pés, a brisa quente de fim de tarde primaveril, aquela cor prateada que a lua dá ao mar, um gelado de café, um ombro amigo, um sorriso maroto, um olhar cúmplice, um cheirinho a pão quente, um baloiço no jardim, aquela música que faz o nosso coração bater mais forte, o livro que nos faz sonhar...

E tu, o que gostavas de ser?

quinta-feira, 5 de março de 2009

EU DESEJO-TE O SUFICIENTE !!!

Há pouco tempo, estava no aeroporto e vi mãe e filha despedindo-se.

Anunciaram a partida, elas abraçaram-se e disse a mãe: Eu amo-te filha. Desejo-te o suficiente. A filha respondeu: Mãe, nossa vida juntas tem sido mais do que suficiente. O seu amor é tudo o que sempre precisei. Eu também lhe desejo o suficiente.

Elas beijaram-se e a filha partiu.

A mãe passou por mim e encostou-se na parede. Pude ver que ela queria, e precisava, chorar. Tentei não me intrometer nesse momento, mas ela dirigiu-se a mim, e perguntou: Você já se despediu de alguém sabendo que seria para sempre?

Já, respondi. Minha senhora, desculpe-me pela pergunta, mas por que é que foi um adeus para sempre?

Estou velha e ela vive tão longe daqui. Tenho desafios à minha frente e a verdade é que a próxima viagem dela para cá será para o meu funeral.

Quando se estavam a despedir, ouvi-a dizer "Desejo-te o suficiente". Posso saber o que é que isso significa?

Ela começou a sorrir. É um desejo que tem sido passado de geração em geração na minha família. Meus pais costumavam dizer isso para toda a gente. Ela parou por um instante e olhou para o alto como se estivesse a tentar lembrar-se dos detalhes e sorriu mais ainda.

Quando dizemos "Desejo-te o suficiente", estámos a desejar uma vida cheia de coisas boas o suficiente para que a pessoa se ampare nelas. Então, virando-se para mim, disse, como se estivesse recitando:

Desejo-lhe sol o suficiente para que continue a ter essa atitude radiante.

Desejo-lhe chuva o suficiente para que possa apreciar mais o sol.

Desejo-lhe felicidade o suficiente para que mantenha o seu espírito alegre.

Desejo-lhe dor o suficiente para que as menores alegrias na vida pareçam muito maiores.

Desejo-lhe que ganhe o suficiente para satisfazer os seus desejos materiais.

Desejo-lhe perdas o suficiente para apreciar tudo que possui.

Desejo-lhe "olás" em número suficiente para que chegue ao adeus final.

Ela começou então a soluçar e afastou-se.

Dizem que leva um minuto para encontrar uma pessoa especial, uma hora para apreciá-la, um dia para amá-la, mas uma vida inteira para esquecê-la.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Amante

Hoje apetece-me partilhar convosco uma cena de um dos meus filmes preferidos…
...
A pele é duma sumptuosa suavidade. O corpo. O corpo é frágil, sem força, sem músculos, poderia ter estado doente, estar em convalescença, é imberbe, sem outra virilidade que a do sexo, é muito fraco, parece à mercê de um insulto, débil.
Ela não o olha no rosto. Não o olha. Toca-o. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Está num estado de amor abominável. E a chorar fá-lo. Primeiro há a dor. E depois esta dor é por sua vez possuída, transformada, lentamente arrancada, levada até ao gozo, abraçada a ela. O mar, sem forma, simplesmente incomparável.
Marguerite Duras

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Gustave Courbet


O líder parlamentar do PS condenou hoje a apreensão cautelar de vários exemplares de um livro, em Braga, por suposta divulgação de pornografia, considerando que a actuação da PSP violou o direito à liberdade de expressão.
"Este acto viola o direito à liberdade de expressão. É uma manifestação censória de obscurantismo", declarou Alberto Martins à agência Lusa.
A PSP, na sequência de queixas que denunciavam a existência de uma alegada obra pornográfica, à venda na feira do livro, procedeu à apreensão cautelar de vários exemplares. O auto da ocorrência foi remetido ao Ministério Público, conclui aquela força de segurança.
Entretanto, na terça-feira, a PSP comunicou que vai devolver os livros apreendidos.
"Tendo-se verificado que o livro reproduz uma obra de arte e não havendo fundamento para a respectiva apreensão, foi determinado o envio de uma comunicação, ao Ministério Público, para considerar sem efeito o respectivo auto", referiu a polícia.
A PSP de Braga apreendeu cinco exemplares de um livro que reproduz na capa uma pintura de Gustave Courbet mostrando o sexo de uma mulher, "não por censura, mas para evitar desacatos", justificou fonte policial.
O segundo comandante da PSP, Subintendente Henriques Almeida, referiu que a exposição dos livros estava a atrair a curiosidade das crianças que brincam na zona - uma área pedonal no centro da cidade - cujos pais se mostravam incomodados com o facto.
As crianças, que ali brincam em grande número, terão visto o livro e começado a chamar outras para irem ver a pintura, o que levou as mães e os pais a chamar a PSP, acentuou.
PMF.
Lusa/fim

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O homem; as viagens
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Luadesce cauteloso na Lua
pisa na Luaplanta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenhoso
fisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

Carlos Drummond de Andrade

In As Impurezas do Branco
José Olympio, 1973